Pensamento é diferente de Cognição –

Para podermos abordar a esfera dos assuntos humanos, que é como Hannah Arendt designa “o mundo” no livro “A Condição Humana”, devemos distinguir o “pensamento” da “cognição” e ainda distinguir estes dois do “poder do raciocínio lógico”.1 (Para além disso, ver também o Post “Pensamento no mundo” é diferente do “pensamento do eterno”).

Hannah Arendt recorda-nos uma essencial distinção entre duas capacidades humanas inteiramente diferentes, o pensamento e a cognição1. O pensamento, fonte das ideias e das obras de arte, não tem um fim ou um propósito fora de si mesmo e não chega sequer a produzir resultados. É tão inútil quanto as obras de arte que pode originar. Segundo Arendt:

“E nem mesmo esses produtos inúteis pode o pensamento reivindicar, pois eles e os grandes sistemas filosóficos dificilmente podem ser chamados de resultados do puro pensamento, estritamente falando, pois é precisamente o processo de pensamento que o artista ou o filósofo ao escrever deve interromper e transformar para a reificação materializadora do seu trabalho. A atividade do pensamento é tão implacável e repetitiva quanto a própria vida, e a questão de se o pensamento tem algum significado constitui o mesmo enigma incontestável como a questão do sentido da vida.”1

Quanto à cognição, esta busca sempre um propósito bem definido, ou por considerações práticas ou curiosidade ociosa, mas, uma vez atingido esse objetivo, o processo cognitivo chega ao fim. O processo cognitivo tem as ciências como a sua principal manifestação e, ainda com Arendt:

“Os processos cognitivos nas ciências não são basicamente diferentes da função da cognição na fabricação; os resultados científicos produzidos através da cognição são adicionados ao artifício humano como todas as outras coisas”1.

Estas duas actividades mentais completamente diferentes, resultantes da necessidade de pensar e do desejo de conhecimento, têm duas preocupações completamente diferentes, o significado, no primeiro caso, e a verdade, no segundo. A necessidade de reflexão não é inspirada pela busca da verdade, mas sim é inspirada pela busca de significados. E “a verdade e o significado não são o mesmo1.

De acordo com Arendt1, para além de distinguirmos o pensamento da cognição, devemos ainda distinguir estes dois do “poder do raciocínio lógico, que se manifesta em operações como as deduções de declarações axiomáticas ou auto-evidentes, subsunção de ocorrências particulares sob regras gerais, ou as técnicas de gerar consistentes cadeias de conclusões”. Neste caso, estamos na presença de um poder do cérebro humano, ao qual se chama habitualmente inteligência, regulado por leis da lógica e semelhante ao poder do trabalho que o animal humano desenvolve no seu metabolismo com a natureza. Isto pode ser medido pelos testes de inteligência, de forma semelhante à que se pode medir a força do corpo. Este processo mental é também aquele que habitualmente se refere quando se fala no ser humano ser substituído pela automação, computadores ou inteligência artificial, e Arendt já o referia em 19581. E, “obviamente, esse poder cerebral e os processos lógicos convincentes que ele gera não são capazes de erguer um mundo, são tão sem mundo (“worldless”) quanto os processos compulsórios da vida, do trabalho e do consumo.”1

Para erguermos um mundo, temos de considerar a criatividade como sendo a acção de iniciar algo de original e inesperado na esfera dos assuntos humanos, que nasce no processo de pensamento individual. Esta capacidade de pensar é conhecida por e possível para todos os seres humanos.

Eu estou de acordo com as ideias de Arendt associadas às diferenças entre estas duas actividades mentais, o pensamento e a cognição, e a primeira ser inspirada pela busca de significados e a segunda pela busca da verdade. Qual é a sua perspectiva sobre estas duas preocupações completamente diferentes, o significado e a verdade, e também sobre a diferença entre o pensamento, a cognição e a inteligência (o poder do raciocínio lógico).

Filipe Novais, Porto, Europe.

Nota: Isto é parte de um Texto que escrevi e apresentei numa conferência de gestão e artes em 2018, intitulado “Creativity in the World and Leadership in Organizations” (22 pp). Se quiser ler o Texto posso enviá-lo por e-mail se entrar em contato comigo para filipe@insperatus.org

Nota: Eu fiz uma tradução livre da edição inglesa de “A Condição Humana”, dado que a existente edição portuguesa não nos parece bem, nem clara, pois gera confusões na sua leitura. Ver no Post em inglês o original de Hannah Arendt.

Image – Gerhard Richter, Abstract Painting 726, Tate, London.

1. Arendt, Hannah, “The Human Condition”, Ed.1998 (1st ed.1958). The University of Chicago Press, Chicago. pp.168-172.

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