Pensamento no mundo é diferente do pensamento especulativo.

Para podermos abordar a esfera dos assuntos humanos, que é como Hannah Arendt designa “o mundo” no livro “A Condição Humana”, devemos distinguir o “pensamento no mundo” do “pensamento do eterno”, especulativo. E devemos também distinguir o “pensamento” da “cognição”, e ainda distinguir estes dois do “poder do raciocínio lógico” (Ver para isso o post “Pensamento é diferente de Cognição”).1

O “pensamento do eterno”, também chamado de razão ou theōria, ou “contemplação”, é bem conhecido desde a “experiência do eterno” e a parábola da caverna na República de Platão como aquele que não se move no mundo das aparências1. Esta experiência filosófica só pode ocorrer fora da esfera dos assuntos humanos e da pluralidade dos seres humanos, pois só assim o filósofo pode ser libertado dos grilhões que o prendiam aos seus semelhantes, deixando a caverna em perfeita “singularidade”, nem acompanhado nem seguido pelos seus semelhantes.

Para ficar bem clara essa diferença entre o pensamento no mundo, que se move na esfera dos assuntos humanos, e o pensamento do eterno, ou “pensamento puro”, saindo da caverna e movendo-se na perfeita “singularidade”, procurando a experiência do eterno, recorramos às próprias palavras de Hannah Arendt ao fazer essa distinção em “A Condição Humana”1:

“Que os vários modos de envolvimento activo nas coisas deste mundo, de um lado, e o pensamento puro que culmina na contemplação, do outro, possam corresponder a duas preocupações humanas centrais completamente diferentes, de uma forma ou de outra, manifestou-se desde que os homens de pensamento e os homens de acção começaram a tomar caminhos diferentes, ou seja, desde o surgimento do pensamento político na escola socrática. No entanto, quando os filósofos descobriram que a esfera política não previa, naturalmente, todas as atividades superiores do homem, eles assumiram imediatamente, não que tivessem encontrado algo diferente além do que já é conhecido, mas que haviam encontrado um princípio superior para substituir o princípio que governava a polis. A mais curta, embora um pouco superficial, forma de indicar estes dois princípios diferentes e até certo ponto conflituantes é lembrar a distinção entre imortalidade e eternidade. (…)”

A experiência do eterno do filósofo, que para Platão era “indescritível” e para Aristóteles “sem palavras”, e que mais tarde foi conceptualizada no paradoxal “agora parado” (nunc stans), só pode ocorrer fora da esfera dos assuntos humanos e fora da pluralidade de homens, como sabemos da parábola da Caverna na República de Platão, onde o filósofo, tendo-se libertado dos grilhões que o prendiam aos seus semelhantes, deixa a caverna em perfeita “singularidade”, por assim dizer, nem acompanhado nem seguido por outros. Politicamente falando, se morrer é o mesmo que “deixar de estar entre os homens”, a experiência do eterno é um tipo de morte, e a única coisa que a separa da morte real é que não é final porque nenhuma criatura viva pode perdurar isso por nenhum período de tempo. E é precisamente isso que separa a vita contemplativa da vita activa no pensamento medieval. No entanto, é decisivo que a experiência do eterno, em contradição com a do imortal, não tenha correspondência com e não possa ser transformada em qualquer atividade, uma vez que mesmo a atividade do pensamento, que ocorre dentro de si mesma por meio de palavras, obviamente não é apenas inadequada para representá-la, mas interromperia e arruinaria a experiência em si.

 Theōria, ou “contemplação”, é a palavra dada à experiência do eterno, distinguindo-se de todas as outras atitudes, que no máximo podem pertencer à imortalidade. Pode ser que a descoberta do eterno pelos filósofos tenha sido ajudada pela sua dúvida mais do que justificada pelas possibilidades da polis para a imortalidade ou mesmo para a permanência, e pode ser que o choque dessa descoberta tenha sido tão avassalador que eles não podiam fazer outra coisa senão olhar para baixo sobre todos os esforços pela imortalidade como vaidade e vanglória, certamente colocando-se assim em aberta oposição à antiga cidade-estado e à religião que a inspirou. Contudo, a eventual vitória da preocupação com a eternidade sobre todos os tipos de aspirações à imortalidade não se deve ao pensamento filosófico. A queda do Império Romano demonstrou claramente que nenhuma obra de mãos mortais pode ser imortal, e foi acompanhada pela ascensão do evangelho cristão, de uma vida individual eterna, à sua posição de religião exclusiva da humanidade ocidental. Os dois juntos fizeram com que qualquer esforço para uma imortalidade terrena seja considerado fútil e desnecessário. E conseguiram tão bem fazer a vita activa e a bios politikos as servas da contemplação que nem mesmo a ascensão do secular na era moderna e a concomitante reversão da hierarquia tradicional entre acção e contemplação bastaram para salvar do esquecimento a luta pela imortalidade que originalmente tinha sido a fonte e o centro da vita activa.”1 (Hannah Arendt)

Numa excelente entrevista de TV com Hannah Arendt, pode encontrá-la a falar sobre essa diferença entre a “experiência do eterno do filósofo” e o pensamento no mundo, que se move na esfera dos assuntos humanos. Como disse Arendt, “a diferença entre filosofia e política está no próprio material” (…) Há uma “tensão entre o homem como filósofo e o homem como um ser que age”. (0,54 – 1,09 min. E 2,35 – 4,12 minutos e VIDEO abaixo).

Do meu ponto de vista esta distinção entre o “pensamento no mundo” e o especulativo “pensamento do eterno”, que conhecemos desde a parábola da Caverna na República de Platão como aquele que não se move no mundo das aparências, é muito importante para pensar e agir sobre o mundo. Com o esclarecimento dessa distinção, acho que podemos ser muito mais criativos quando usamos o “pensamento no mundo”. Qual é o seu ponto de vista sobre este assunto?

Filipe Novais, Porto, Europe.

Nota: Isto é parte de um Texto que escrevi e apresentei numa conferência de gestão e artes em 2018, intitulado “Creativity in the World and Leadership in Organizations” (22 pp). Se quiser ler o Texto posso enviá-lo por e-mail se entrar em contato comigo para filipe@insperatus.org

Nota: Eu fiz uma tradução livre da edição inglesa de “A Condição Humana”, dado que a existente edição portuguesa não nos parece bem, nem clara, pois gera confusões na sua leitura. Ver no Post em inglês o original de Hannah Arendt.

Image: Auguste Rodin, The Thinker, 1903; Musée Rodin, Paris. Adapted from a public domain photo courtesy of AndrewHorne, Wikipedia.

1. Arendt, Hannah, “The Human Condition”, Ed.1998 (1st ed.1958). The University of Chicago Press, Chicago. pp.17-21 – “3. Eternity versus Immortality”.

 

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