Espaços de pensamento – Um ser humano nunca está mais activo do que quando nada faz!

Pensar no mundo é estar activo na esfera das relações humanas, como argumentou Hannah Arendt1. Ou, de acordo com a designação dada por Joseph Beuys, pensar no mundo é já estar a realizar “escultura social”. E essa postura sustenta que, se aceitarmos que “todos somos artistas”, isso transformará as sociedades em que vivemos. A criatividade deve começar em cada ser humano, no seu pensamento, na expressão da sua liberdade, e assim cada um pode incorporar e levar para diante o impulso de mudança no mundo. É a essa expressão da liberdade individual que chamamos os espaços de pensamento dos seres humanos na esfera das relações humanas.

Para erguermos um mundo, temos de considerar a criatividade como sendo a acção de iniciar algo de original e inesperado na esfera dos assuntos humanos, que nasce no processo de pensamento individual. Esta capacidade de pensar é conhecida por e possível para todos os seres humanos. Mas, se esse processo de pensamento faz parte da chamada Vita Contemplativa, por oposição à Vita Activa, de que faz parte a acção, será que quando estamos a pensar não estamos activos? Para responder a essa questão recorremos a Arendt nas palavras finais do livro “A Condição Humana”, depois retomadas no livro “The Life of the Mind”, onde nos lembra uma curiosa frase dos tempos romanos, que Cícero terá atribuído a Cato:

  “Um ser humano nunca está mais activo do que quando nada faz, nunca está menos só do que quando está a sós consigo mesmo”1

E ainda Arendt: “Assuming Cato was right, the questions are obvious: “O que estamos “a fazer” quando não fazemos nada para além de pensar? Onde estamos quando nós, usualmente sempre cercados pelos nossos semelhantes, estamos juntos com ninguém para além de nós mesmos?”1. Estaremos connosco próprios a criar o mundo? E de novo Arendt, “Pois, se nenhum outro teste a não ser a experiência de estar activo, nenhuma outra medida, mas a extensão de pura atividade fosse aplicada às várias actividades dentro da Vita Activa, poderia bem ser que o pensamento como tal superasse todas elas.”2. Ou, de acordo com a designação dada por Joseph Beuys, estar a pensar no mundo é já estar a realizar “escultura social”.

Os espaços de pensamento de cada ser humano na esfera das relações humanas são essenciais para incorporarmos e levar adiante o impulso para a mudança no mundo.

Eu estou de acordo com estas ideias de Hannah Arendt. E é assim que podemos entender os espaços de pensamento. Qual é a sua perspectiva sobre este pensamento no mundo e um ser humano estar activo quando nada faz?

Para ver mais sobre pensamento, criatividade e Joseph Beuys veja estes nossos posts, entre outros que pode encontrar neste website acerca disto: “Criatividade no Mundo”, “Joseph Beuys e “Criatividade no Mundo””, etc.

Filipe Novais, Porto, Europe.

Nota: Isto é parte de um Texto que escrevi e apresentei numa conferência de gestão e artes em 2018, intitulado “Creativity in the World and Leadership in Organizations” (22 pp). Se quiser ler o Texto posso enviá-lo por e-mail se entrar em contato comigo para filipe@insperatus.org

Image: Anish Kapoor; Installation, Lisson Gallery; London; 2017. (Photo: Rita Novais).

1. Arendt, Hannah, “The Life of the Mind”, Ed.1978 (1st ed.1971), pp.7-8. A Harvest Book Harcourt, Inc.; New York. Na versão de Arendt em inglês:

“Never is a man more active than when he does nothing, never he is less alone than when he is by himself.”

2. In Arendt, “The Human Condition”, Ed.1998 (1st ed.1958). The University of Chicago Press, Chicago. pp.325.

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