A Natalidade como condição humana –

O futuro do mundo é totalmente desconhecido e está cheio de situações inesperadas, mas a “criatividade no mundo” permite lidar melhor com essa imprevisibilidade e irreversibilidade da acção na esfera dos assuntos humanos. E, para tentar mudar as sociedades em que vivemos, podemos recorrer à natalidade, a condição humana mais importante dos seres humanos de acordo com Hannah Arendt, que é a capacidade de fazer nascer algo de original e inesperado no mundo. Para estarmos preparados para isso, para sermos criativos e fazermo-nos sentir no mundo, às vezes podemos querer ou ter que ser invisível para a realidade das necessidades, como nos lembra a artista Hito Steyerl.

Para Hannah Arendt, no seu livro “The Human Condition”1, o importante era pensar qual é a experiência de fazer política, e essa experiência é a acção que acontece em liberdade e pluralidade, os seus dois elementos centrais. Para ela, liberdade significa a capacidade de começar algo original, de fazer o inesperado, a capacidade de que todos os seres humanos são dotados em virtude do seu nascimento. Sendo assim, a acção como realização de liberdade está enraizada na natalidade, no facto de cada nascimento representar um novo começo e a introdução do original no mundo. Então, a liberdade é a possibilidade de pensar e de encontro com outras pessoas na esfera dos assuntos humanos e com isso criar algo de original e inesperado. Agir significa pensar e tomar a iniciativa de introduzir aquele original e inesperado no mundo. É assim que criamos o mundo. É isso a “criatividade no mundo”, o pensamento e a acção que acontecem em liberdade e pluralidade.

Quando pensamos no que podemos fazer, para dessa forma agirmos e criarmos algo juntos, essa criatividade é uma acção em liberdade, mas também em pluralidade, o que inclui os outros no mundo. Não podemos sozinhos mudar o mundo, mas podemos tentar mudar a forma de pensar de cada um, podemos tentar que todos sejam criativos, tentar que todos tenham o ímpeto pela “criatividade no mundo”, e assim tentar mudar o futuro do mundo. Esse futuro do mundo é totalmente desconhecido e estará cheio de situações inesperadas, que decorrem da imprevisibilidade e irreversibilidade da acção na esfera dos assuntos humanos.

Dado que a acção humana é imprevisível e irreversível, o que salva a esfera dos assuntos humanos é podermos iniciar algo de original e inesperado no mundo, é sermos criativos. Sobre este papel relevante dos novos começos, da criatividade no mundo, relembremos as palavras de Arendt a acentuar a importância da condição da natalidade:

“The miracle that saves the world, the realm of human affairs, from its normal, “natural” ruin is ultimately the fact of natality, in which the faculty of action is ontologically rooted. It is, in other words, the birth of new men and the new beginning, the action they are capable of by virtue of being born. Only the full experience of this capacity can bestow upon human affairs faith and hope, those two essential characteristics of human existence which Greek antiquity ignored altogether, discounting the keeping of faith as a very uncommon and not too important virtue and counting hope among the evils of illusion in Pandora’s box. It is this faith in and hope for the world that found perhaps its most glorious and most succinct expression in the few words with which the Gospels announced their “glad tidings”: “A child has been born unto us.””2

A condição humana mais importante nos seres humanos é a natalidade, a capacidade de dar à luz algo de original e inesperado no mundo. É assim que temos a capacidade de criar e procurar definir o futuro e não permitir que cada um e o mundo sejam definidos pelo passado. E, como defende a artista Hito Steyerl na sua excelente obra “How not to be seen”3, nesta vida de excessos de imagens e de vigilância, de domínio dos selfies e das tecnologias de informação e comunicação, para conseguirmos a capacidade de fazer nascer e iniciar algo de maneira inesperada, poderá ser preciso conseguir ser invisível nessa realidade cheia de coisas necessárias ou úteis. Para estarmos preparados para fazer iniciar algo inesperado, para sermos criativos e fazermo-nos sentir no mundo, poderemos querer conseguir ser invisíveis da realidade das necessidades, para assim nos deixarmos ser condicionados apenas pelo mundo, a esfera dos assuntos humanos.

Filipe Novais, Porto, Europe.

Image: From Hito Steyerl video, “How Not to Be Seen: A Fucking Didactic Educational .MOV File”; 2013, Tate, London.

1. Arendt, Hannah, “The Human Condition”, Ed.1998 (1st ed.1958). The University of Chicago Press, Chicago.

2. In Arendt, 1998, op.cit.; pp.236-247.

3. Hito Steyerl, 2016; “How not to be seen”, Video in “Hito Steyerl – ‘Being Invisible Can Be Deadly’”, TateShots min.4.40; Modern Tate, London. Also Hito Steyerl (b.1966, Germany), April 2018, Exhibition EYE Art & Film Prize 2015; Amsterdam, Netherlands.

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