O Amor do Mundo – A Condição Humana – A Distinção entre Trabalho, Obra e Acção.

Hannah Arendt considerou chamar “Amor Mundi: The love of the world” ao seu livro “The Human Condition”1; e disse então: “O mais difícil é amar o mundo como é, com todo o mal e sofrimento nele2. Ela fez e quis isso mesmo, que amassemos o mundo, o que não significa aceitá-lo sem crítica, nem rejeitá-lo com desdém. Acima de tudo, significa um enfrentamento firme e uma compreensão daquilo que o mundo é. Ela quer que cada um pense como as actividades humanas podem ser entendidas ao longo da história ocidental para assim repensar o papel e o lugar dos seres humanos no mundo e poder actuar melhor e com mais comprometimento na sua actualidade.

Arendt nesta sua obra “The Human Condition”1 faz uma distinção essencial, que nos ajuda a colocar as coisas nos seus sítios e nos faz tentar entender o estado da humanidade no mundo contemporâneo em que habitamos. Quer que pensemos o que andamos a fazer por aqui e contempla a condição humana do ponto de vista das actividades de que o ser humano é capaz, as quais não têm nada a ver com a natureza humana.

Existem três actividades humanas fundamentais – o trabalho, a obra e a acção. São fundamentais porque cada uma delas corresponde a uma das condições básicas mediante as quais o ser humano vive na terra – ao trabalho corresponde a vida; à obra a mundanidade; e à acção a pluralidade. Nunca deveríamos esquecer que uma das principais características nos seres humanos é esta pluralidade, sendo cada um deles capaz de novas perspectivas e acções que não cabem em nenhum tipo de arrumação ou modelo de previsão.

As três capacidades e as suas correspondentes condições constituem em conjunto a Vita Activa, que é definida em justaposição à Vita Contemplativa. E o debate sobre a relativa importância dessas duas não interessa a Arendt, pois isso tem levado a que se deixem de lado muitas ideias importantes sobre elas e sobre a forma como a Vita Activa tem mudado desde tempos antigos, que é o que ela estuda neste livro “The Human Condition”3.

Arendt também nos lembra o que outros pensadores consideraram e que importância deram a cada actividade humana. Por exemplo, Adam Smith considerou a Vita Contemplativa como algo não produtivo. Todas as actividades de pensamento ou semelhantes, dado que não têm materialidade, não podem ser transformadas em produtos, nem trocados no mercado ou medidos, são vistas como trabalho não produtivo. Então com Adam Smith o foco voltou-se para o trabalho produtivo, a produção e as obras produzidas, pois ele desejava explicar como assegurar a livre acumulação ilimitada de riqueza4.

Quanto a Karl Marx, já achava que se deve considerar a Vita Contemplativa, pois as ideias, o conhecimento e as ideologias são muito importantes, mas são sempre contingentes à base, que é o trabalho. Para Marx, a coisa mais importante para compreender o desenvolvimento histórico, a forma como os seres humanos moldam o mundo é o trabalho. De acordo com Arendt, temos então “a promoção súbita e espetacular do trabalho, da mais baixa e desprezada posição para a mais alta patente, como a mais estimada de todas as atividades humanas”, “tendo encontrado o seu clímax no “system of labor” de Marx, no qual o trabalho se tornou a fonte de toda a produtividade e expressão da própria humanidade dos homens.”4

Nos tempos modernos, a principal característica da condição humana é que os seres humanos se centraram no trabalho em detrimento das outras formas de atividade humana. Mas, se o importante para Marx era o trabalho e para Adam Smith era a produção de obra usando o trabalho, no caso de Arendt ela preocupou-se mais com a acção. Ela quis entender a forma em que podemos passar as ideias que temos para a vida práctica, fazer algo com elas no mundo. Acção é para ela trazer o pensamento, o espaço de liberdade de cada um, para o mundo que se caracteriza também pela pluralidade.

Para ver mais sobre a acção que acontece em liberdade e pluralidade, que é a experiência de fazer política, e sobre o que é essa liberdade, veja o nosso post “Criatividade em diferentes Actividades Humanas”.

Filipe Novais, Porto, Europe.

Nota: Este texto é parte de um Paper que escrevi e apresentei numa conferência de gestão e artes em junho 2018, intitulado “Creativity in the World and Leadership in Organizations” (22 pp). Se quiser ler o Paper posso enviá-lo por e-mail se entrar em contato comigo para filipe@insperatus.org.

1. Arendt, Hannah, “The Human Condition”, Ed.1998 (1st ed.1958). The University of Chicago Press, Chicago.

2. In a letter of Hannah Arendt to Karl Jaspers on August 6, 1955, “Out of gratitude, I want to call my book about political theories Amor Mundi.” In “Correspondence 1926-1969”. Mariner Books, NY; Ed.1993.

3. “Barak Kalir presents the work of Hannah Arendt”; in Social Science Research, University of Amsterdam; March 2017. This conference is a very good introduction to “The Human Condition” and other works of Hannah Arendt. Video on:

“https://www.youtube.com/watch?v=jJKNgE5WyJY”

4. Based on Arendt, 1998, op.cit.; pp.101.

Image: Hanna Arendt; from RTP, Câmara Clara, 2006.

 

 

 

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