Criatividade Funcional é diferente da Criatividade no Mundo –

A “criatividade no mundo” é a criatividade individual que existe quando cada ser humano está a exercer a sua liberdade, a pensar e agir na esfera das relações humanas, que tem como condição a pluralidade. Neste post abordamos a criatividade a que chamamos funcional, para a podermos distinguir da anterior, e vamos tentar compreender um pouco por onde têm andado as ideias e aplicações sobre esta criatividade caracterizada pela sua instrumentalidade. Em termos das actividades humanas fundamentais caracterizadas por Hannah Arendt, na sua obra “A Condição Humana”1, como trabalho, obra e acção, os conceitos e as teorias da Economia e Gestão relativas à criatividade têm sido enquadradas pelas actividades do trabalho e da produção e não pela acção e a sua condição de pluralidade.

Chamamos aqui “criatividade funcional” à criatividade que aparece no estabelecimento de funções entre a geração de novas ideias e obras, o conhecimento e talento dos indivíduos e a correspondente produtividade e crescimento na economia. É a criatividade que geralmente se encontra em escritos e investigações sobre criatividade nos quais esta é utilizada como mais um instrumento de explicação do funcionamento das economias e de organizações em diferentes contextos.

Existem muitas abordagens na literatura científica da Economia e Gestão para a compreensão de relações funcionais entre a criatividade e o trabalho, o fazer obras e a vida das empresas, quer ao nível dos negócios, quer ao nível regional ou nacional. Essa criatividade é também designada de outras formas como, por exemplo, “imaginação criativa”, inovação, capital humano, “classes criativas”, “cidades criativas”, etc. Esses estudos pretendem a redução da realidade até ao estabelecimento de funções entre a geração de ideias e novas obras, a existência de trabalhadores com determinados conhecimentos, aptidões e competências e o correspondente crescimento na economia.

Ou seja, a variável criatividade está nesses casos normalmente associada ao conhecimento e talento dos indivíduos na explicação funcional do aumento da riqueza. E fazer essa utilização instrumental da criatividade não é o mesmo que considerar a criatividade como a acção de iniciar algo de original e inesperado no mundo que acontece com o processo de pensamento individual, da forma que a abordamos no que chamamos de “criatividade no mundo”.

O que pensa sobre isto? Não acha que esta distinção entre a “criatividade funcional” e a “criatividade no mundo” nos ajuda a entender melhor em que trabalhamos, o que fazemos e criamos na vida e no mundo? Todos precisam usar a sua Criatividade Individual para estarem melhores quer na vida, familiar e nas empresas e outras organizações, quer no mundo, naqueles assuntos humanos que dizem respeito a todos e para os quais não há uma medida ou denominador comum que possa ser inventado.

Filipe Novais, Porto, Europe.

Nota: Isto é parte de um Texto que escrevi e apresentei numa conferência de gestão e artes em 2018, intitulado “Creativity in the World and Leadership in Organizations” (22 pp). Se quiser ler o Texto posso enviá-lo por e-mail se entrar em contato comigo para filipe@insperatus.org

1. Arendt, Hannah, “The Human Condition”, Ed.1998 (1st ed.1958). The University of Chicago Press, Chicago.

Image: Josef Albers, Study for Homage to the Square: Beaming; 1963; Tate, London.

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