A Criatividade Funcional na Gestão e a distinção entre Criatividade e Inovação –

Enquanto em Economia geralmente não encontramos uma distinção clara entre o que é Criatividade relativa à criação de ideias ou a relativa à produção de novas obras para o mercado, na Gestão, sendo uma análise mais detalhada do funcionamento das organizações, podemos mais facilmente encontrar essa distinção entre Criatividade e Inovação como dois conceitos diferentes. De acordo com Teresa Amabile, uma das mas conhecidas investigadoras da criatividade nos negócios, a criatividade é a geração de ideias novas e adequadas (“new and appropriate ideas”) e a inovação implementa essas ideias nos mercados ou outras áreas do negócio. Para Amabile, ao contrário das artes, “nos negócios, a originalidade não é suficiente. Para ser criativa, uma ideia também deve ser adequada – útil e processável (“appropriate – useful and actionable”). Deve, de alguma forma, influenciar a forma como os negócios são feitos – melhorando um produto, por exemplo, ou abrindo uma nova maneira de abordar um processo.”1

Amabile defende que a criatividade tem três componentes essenciais: A habilidade de pensamento-criativo (Creative-thinking skills; refere-se a como as pessoas abordam problemas e soluções, a sua capacidade de reunir ideias existentes em novas combinações), Especialista (Expertise; talento ou habilidade em um domínio particular, ou conhecimentos – técnico, processual ou intelectual) e Motivação (Motivation; extrínseca ou intrínseca, e esta pode ser mais imediatamente influenciada pelo ambiente de trabalho).

As investigações de Amabile e de muitos outros autores têm procurado relações funcionais entre componentes da criatividade individual e a produtividade do trabalho, a criatividade de equipas e a inovação organizacional que podem gerar mais produção para os mercados. Nesta instrumentalização da criatividade, as investigações procuram compreender, por exemplo, como o ambiente de trabalho pode influenciar a criatividade e a motivação, procuram criar teorias da criatividade e inovação, métodos de avaliação da criatividade e um conjunto de prescrições para manter e estimular a criatividade e a inovação. Deste modo, as investigações tentam encontrar soluções para melhorar a criatividade e as operações dos negócios, ou seja, em todos estes casos a Gestão procura compreender a relação causa-efeito entre a criatividade e o trabalho, o fazer e a vida das empresas. Estamos essencialmente no âmbito das actividades do trabalho e da obra e não no pensamento e acção do ser humano no mundo.

Estamos então a ver que a Criatividade que a Gestão tem geralmente tratado é a que chamamos Funcional, caracterizada pela sua instrumentalidade. Está relacionada com uma produção de coisas para o mundo onde começa a haver alguma criatividade, começa a haver uma certa qualidade de liberdade, mas ainda instrumental, pois a obra é sempre um meio para um fim. Neste caso, a Criatividade está em acção quando fazemos uma obra que é um meio para atingir um objectivo como, por exemplo, fazer um automóvel ou um filme com certas características, ou resolver uma questão ou um problema. Mas, nestes casos só há Criatividade quando a ideia é adequada, como diz Amabile? Como é que a qualquer momento no processo criativo, com tantas ideias e coisas a acontecer, se pode dizer que algo é apropriado ao objectivo? Porque é útil e acionável? O “como fazer” não existe na Criatividade, nem na funcional nem no mundo. A Criatividade, mesmo quando estamos a fazer algo para atingir um objectivo, não se explica, não tem um “como fazer”. A Criatividade precisa que cada um expresse a sua liberdade e de condições que estimulem isso, mas as pessoas não precisam que lhes expliquem como isso é feito..

Pode-se tentar analisar mais tarde o que aconteceu, quando a obra, o produto está feito, mas isso é fazer história, económica neste caso. É contar casos do que aconteceu na criatividade humana, casos sempre irrepetíveis, num mundo de situações inesperadas, onde a imprevisibilidade e a irreversibilidade predominam. Fazer essas histórias é muitas vezes para contar casos muito interessantes, mas esperamos que eles não alimentem a vontade de estabelecer teorias da criatividade, “métodos de avaliação da criatividade” (É possível avaliar a criatividade?) e um conjunto de prescrições para manter e estimular a criatividade (como um livro de receitas, a criatividade “à la carte”). Voltaremos a estes assuntos.

Do meu ponto de vista, tentar entender a Criatividade Funcional na Gestão faz parte de entender o que é a Criatividade e a diferença entre “Criatividade Funcional” e “Criatividade no Mundo”. Isso é essencial para melhorar a relação de todos com o trabalho, a obra e o pensamento e acção do ser humano no mundo. Todos precisam usar a sua Criatividade Individual para estarem melhores quer na vida, familiar e nas empresas e outras organizações, quer no mundo, naqueles assuntos humanos que dizem respeito a todos e para os quais não há uma medida ou denominador comum que possa ser inventado.

O que acha sobre tudo isto? Para ver mais vá aos nossos posts “Criatividade em diferentes Actividades Humanas – trabalho, obra e acção” e “Criatividade Funcional é diferente da Criatividade no Mundo”.

Filipe Novais, Porto, Europe.

Nota: Isto é parte de um Texto que escrevi e apresentei numa conferência de gestão e artes em 2018, intitulado “Creativity in the World and Leadership in Organizations” (22 pp). Se quiser ler o Texto posso enviá-lo por e-mail se entrar em contato comigo para filipe@insperatus.org

1. Amabile, Teresa, 1998. “How to Kill Creativity”; Sep-Oct 1998 issue of Harvard Business Review; Brighton, Massachusetts.

Image – William Kentridge, Felix in Exile, 1994; Tate, London.

[Nota: Eu usei esta imagem não pelo que ela poderia simbolizar originalmente no Vídeo de William Kentridge, mas por causa do desenho de duas pessoas a tentar medir-se uma à outra, talvez procurando medidas ou denominadores comuns e outras formas de avaliar algo humano…]

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